quinta-feira, 26 de março de 2009

Ela sorria com os olhos...

Uma breve contração... Ela não podia se arriscar a ser tão explícita.

Era um torpor imenso, ansiedade, confusão. Não sabia se parava de mecher nas revistas pra mecher nos dedos, no cabelo, na roupa, na parede, no infinito. Era ela e só. Um mundo de possibilidades.
Eis que finalmente a porta se abre, e ela encheu-se de adrenalina. Era sua primeira visita a alguem que com certeza lhe prejudicaria de alguma forma, mas ela não temia. Ela aguardava. Esperou que lhe chamassem... Dirigiu-se cautelosamente... Com o coração na boca. O imaginário lhe tomava de conta... Mas ela ainda assim sentia satisfação. Veriamos quem manipularia quem.
Ela entrou no consultório. Algo que lhe pareceu além das espectativas. Outrora imaginava um consultorio comum. O que fazem aqui todos esses brinquedos? Por que não queimá-los e dirigir-se ao que realmente importa? Um diagnostico precipitado, uma precipitação premeditada, um medo sem precedentes.
Não se sabia exatamente o motivo dela estar ali... Mas ela percebeu que seria a hora de virar o jogo, para assumir aparentemente o controle.
Ele estica a mão para cumprimentá-la, e apresenta-se. Ela ignora. Senta-se, e lhe sorri, carinhosamente, encantadoramente.
''Por favor... Não finja que não veio aqui fazer o seu trabalho.'' Disse ela, ainda sorrindo.
Ele sorriu.
A expressão da garota mudara instantaneamente. Assustadoramente. Agora ela estava séria, encarando-lhe fixamente com os olhos... Por longos segundos. Ele não ousa interrompe-la.
Depois de toda tensão, de sentir aquela leve sensação de quem criou o clima perfeito, ela volta a sorrir. E diz: '' Eu sou um ser humano. E em você vou anotar minhas oralidades.'' Ele faz menção de quem quer falar algo, mas ela o ignora. Se levanta... Caminha pela sala como quem quer reconhecer o território. O clima é pesado. Bastante eu diria. Ela se aproxima do médico... Sorri, agora mais encantadoramente que nunca... E diz: '' E me transformo lentamente no que digo.'' Estende a mão e cumprimenta o estranho.
O psiquiatra finalmente sorrira. Sorrira de uma forma que deixou transparecer ao máximo a sensação que lhe corria pelo sangue...Sim, depois de quase 10 anos de formado, ele havia encontrado na profissão aquilo que mais almejava. Um caso perfeito de psicopatia. Ela compreendeu perfeitamente o que ele sentia... Ela sorriu também, empolgada por ele se sentir feliz. As emoções geralmentem lhe agradavam, pois ela jamais as tivera. Sobre algumas ela ainda exercia algum poder, como a dor. Era empolgante sentir dor, por que era algo que lhe tornava mais humana, ela arrancou uma caneta da mesa do médico, bateu na ponta do birô, e passou na mão... Agora ela sentia alguma coisa. Um pedaço do céu. Não que ela fosse masoquista ou gostasse de sofrer... Mas ela precisava sentir alguma emoção. Precisava!
Ela não fez isso de forma louca. Fez de forma sutil. A mais sutil possivel. Passou na mão e fez a famosa cena de atriz, que todos sic fazem: 'Au!!' Ele preocupou-se. Aquilo fez com que ela se enchesse de ódio. Por mais perfeita que fosse a atuação, ele não podia ter acreditado que ela era tão inofensiva. Não podia querer ajuda-la. Ela jogou a caneta de lado parando com a encenação agora: '' Você pretende continuar?'' Ele se dera conta que estava na situação mais dificil de sua vida. Precisava continuar. Não saberia viver sem aquela adrenalina proporcionada naquele momento. Ela sorriu. Chegara, mais uma vez, aonde queria chegar. Ele não fazia a minima noção de como controlar a situação, esqueceu de vez tudo que aprendera na faculdade, agora era um caso real. Levantar-se e tentar senta-la parecia assinar uma sentença de morte, permanecer sentado parecia impossivel. Ele estava num nível de stress ao máximo, como uma atitude reflexo dera um murro na mesa, por sua total incapacidade de agir. Ela voltou-se para o semblante dele, e como um gesto piedoso, tirou os sapatos, sentou-se com pernas cruzadas no tapete, fechou os olhos por 10 segundos. Abriu. Olhou pra ele, e o convidou pra sentar-se junto a ela. Ele repetiu a atitude. Tirou os sapatos como forma de respeito, sentou-se da mesma maneira. fechou os olhos. Ela fez um movimento rapido e preciso, com muita força ela agarrou o pulso dele para sentir a pulsação, logo apos o susto que ele tomaria com a atitude agressiva. Nenhuma palavra.Talvez na proxima vez que ela viesse ao consultorio, enfermeiros estariam esperando para interna-la. Mas afirmei no inicio do texto, e reafirmo: A situação periclitante era prazerosa demais. Ele abriu os olhos com um susto, ela o machucava, mas ele não teimava abrir a boca, ela sentiu a pulsação. Largou o braço e disse: Não precisa ter medo, agora os papéis se inverteram.
Ela correu ate as gavetas do birô, pegou papeis, lapis, e voltou ao tapete. Deu um papel para ele, e ficou com outro. A mesma coisa com os lapis. Disse: Desenhe essa situação. Ele queria continuar, mas ela nao permitiu, agora serenamente falou: ''De forma alguma.'' Colocou uma música anos 80, meio blues. Aquilo o torturava, mas parecia que ela estava em puro deleite. Agora ela se jogou no tapete, e pos-se a desenhar. Ele imitou-a.
Refletindo sobre o que iria desenhar ele puniu-se. Não poderia continuar a ser passivo. Era ele o sério, e ela a louca. Ele não poderia deixar-se dominar. Mas lá no fundo uma voz soprava: '' É engano pensar que psicopatia é sinonimo de loucura.'' Ele a desenhou matando-no. Ela desenhou algo bem rustico. Desenhos não muito precisos, algo parecido com uma ponte, que parava no meio de um rio, de pouca profundidade, e uma mulher de vestido, caminhando ate o final da ponte. no alto, ela desenhou deus.
Ao ver o desenho dele ela sorriu. E disse: 'As pessoas deveriam saber o valor de uma vida normal, doutor.' Compreendendo que ele agora desejava ser o ativo. Entregou-lhe o desenho e calou-se, permitindo que ele falasse. Ele disse tudo que estava preso desde o inicio, absolutamente. Ela tinha uma enorme capacidade de concentração. Concentrou-se na música.
Quando ele acabou ela disse: ''O seu tempo acabou.'' Ele assustou-se imediatamente. O que ela pretendia fazer?
Ela se levantou, calada, calçou os sapatos e foi embora. O coração dele saltava pela boca. Ele olhou pro relogio. Realmente, já se passara uma hora. O tempo tinha acabado. Eles se olharam pela ultima vez na semana... Nos olhos... Ela como um cãozinho indefeso. Ele, como um dono que acabara de abandonar seu animal.